segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O Teatro da Vida!!!

Saudações, queridos leitores do DOIS TONS...

Informo que a partir de agora farei postagens apenas pelo meu outro blog, o TEATRO DA VIDA...

Os posts daqui continuam ativos, assim como este blog, mas novidades estarão dispostas no endereço abaixo:

www.oteatrodavida.blogspot.com

Abraços... e... Happy New Year...

Kleber Godoy

sábado, 16 de outubro de 2010

Qual máscara a escolher hoje?

Por Kleber Godoy

Texto interessante escrito por Jorge Forbes, o qual nos faz refletir acerca das máscaras que diariamente somos impulsionados a vestir. E ai, sobriviverá a coragem de "ser"?

Sucesso e Crise (29/09/2010) (por Jorge Forbes)

Sorteio, doença, acidente, glória repentina, viagem inesperada, enfim, mudanças rápidas de status são uma ameaça para a identidade. A identidade humana é frágil, flexível, responde ao ambiente, para o melhor e para o pior. Se nos compararmos com os animais, fica fácil perceber que uma vaca é sempre uma vaca, assim como as formigas, as abelhas, os macacos. Animais não duvidam, sempre sabem o que fazer, e o que fazem é sempre o mesmo. Humanos chegam a invejar os animais querendo copiar seu método infalível de serem sempre iguais. É o que explica o sucesso de filmes como o “A marcha do Imperador”, que mostra a forma de pinguins atravessarem sem erro a vastidão branca do ártico. Esse filme foi passado em várias empresas para “inspirarem” o comportamento dos executivos. Que fria!

Em nossa sociedade, o setor no qual esse fenômeno de desestabilização da identidade é mais aparente é no futebol. Em muito pouco tempo um rapaz pode passar de  ´a´ a ´z´, como por exemplo do anonimato e da dificuldade econômica, à fama e à fortuna. Chocado pela mudança brusca, a pessoa não se reconhece, é como se perdesse a bula de viver, em seus mais variados aspectos, tal quais: como amar, como andar, como ser amigo, como cumprimentar, como comer, como se educar. Aflito, essa pessoa sai atrás de uma nova cara para si mesma, de uma identidade que responda à sua nova situação. Acaba encontrando no balcão das máscaras prontas para vestir - é a base do que chamamos um “mascarado”. Para seu azar, as máscaras não resolvem a angústia da desestabilização da identidade, que continua incomodando tal qual uma espinha debaixo da unha. No caso da glória súbita o que angustia, contrariamente ao bom senso que levaria a pensar que aí tudo é felicidade, o que angustia é a sensação oceânica de expansão egóica, do tudo pode. Quando o “tudo pode” se instala traz junto a indefinição das fronteiras corporais, do limite: do quem sou eu, do quem é você. É nesse momento que uma pessoa fica mais suscetível a que algo ruim lhe ocorra. Pode ser um desastre, uma briga, um crime, uma doença grave, enfim, alguma coisa que dê um basta ao sentimento insuportável da ilimitação de si mesma.

Como tratar? Existem duas formas básicas de tratamento: um tradicional, que envelheceu, e um novo, que começa a ser aplicado. O tratamento tradicional é o de gerar “boas máscaras”, propor formas corretas de se comportar. É o que ocorre quando se vai buscar símbolos encarnados em pessoas, em valores, em instituições, para que alguém “corretamente” se aliene. Já falei do filme dos pinguins, poderia também dar o exemplo do filme “Tropa de Elite” que fez tanto sucesso, e do qual se aguarda a continuação, e que, entre outras, trata de como criar um grupo em torno a uma idéia única. Ele também foi projetado em empresas, ensinando aos funcionários descontentes o “Peça para sair” - refrão repetido nos treinamentos da idealizada tropa. Por que dizer que esse procedimento envelheceu? Porque ele se baseia em uma sociedade que estabelecia laços sociais verticais: na família, no trabalho, na sociedade civil. A sociedade globalizada, que habitamos hoje, não é vertical, mas horizontal. As relações não se estabelecem mais em torno a um bem maior, mas em torno a uma multiplicidade de escolhas de seus participantes. Nesse caso, será que estaríamos condenados à dispersão, ao cada um por si? Não é o que temos verificado: a explosão da promiscuidade sexual, por exemplo, que muitos temiam que ocorresse, dada a quebra dos mecanismos verticais de controle, como a força paterna, não ocorreu. Cientistas das humanidades constatam que uma nova forma de organização já está em funcionamento e que devemos aprender a reconhecê-la para poder trabalhar com ela.

Tomemos o caso mais frequente da equipe de futebol. A imprensa tem noticiado insistentemente os problemas vividos por jogadores e seus clubes, em decorrência dos aspectos que estamos analisando aqui: sucesso e crise. Assistimos a busca aflita de dirigentes de por ordem na “bagunça estabelecida entre os atletas” – conforme uma declaração recente. Tentam de tudo: chamar os pais, dar corretivos, multas, suspensões, maior tempo de concentração, aula de religião, de civismo, enfim, despencam todo um arsenal de ordens morais, com pífios resultados. Em vez disso, em vez de insistir, como antigamente, fazer dos diferentes, uma unidade comum, um exército de pinguins, melhor será legitimar as diferenças e mostrar para cada um a responsabilidade individual de participar de um grupo no qual as diferenças são enormes: de ganho, de projeção e de futuro. Isso pode parecer impossível, mas não é. O psicanalista Jacques Lacan visitou a Inglaterra logo depois do final da segunda guerra mundial, com um interesse preciso: o de saber como um grupo tão combalido – o exército inglês – tinha sido capaz de vencer a mais bem planejada máquina de guerra do mundo moderno, o exército alemão. Foi conversando com os psiquiatras ingleses que ele aprendeu as bases de como fazer um grupo de diferentes perseguir o mesmo objetivo, por um certo tempo. A resposta poderia assim ser resumida: a. não escamotear as diferenças; b. mostrar que no mundo atual a liberdade de um só é possível com a liberdade do outro (não como se dizia, antigamente, que a liberdade de um começa, onde termina a do outro); c. que a responsabilidade individual é fruto da vergonha/honra e não do temor do castigo; d. que a referida fragilidade da identidade humana é o que explica a sua criatividade e invenção, e que, finalmente; e. o futebol é um dos principais laboratórios de uma sociedade que articula talentos individuais com jogo grupal – razão do seu fascínio.    

Artigo publicado em “Psique – Ciência e Vida”, n° 57, Setembro de 2010.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Leitura Terapeutica

Por Kleber Godoy

O texto de hoje é composto por uma notícia que achei muito interessante, criativa e extremamente importante: diminuir o sofrimento de pessoas hospitalizadas através da leitura. Acredito que será uma leitura agradável a você...



Hospitais serão obrigados a possuir mini biblioteca para pacientes

em 24HorasNews
10 outubro 2007

O ambiente insípido, a falta de coleguinhas e da própria casa, pode causar depressão em crianças e adolescentes que necessitam ficar internados por tempo indeterminado. Para amenizar um pouco este desconforto foi sancionada pelo governador do Estado Blairo Maggi no último dia 02 a lei 8718, que determina a implantação de mini-biblioteca pública ou banca de livros em hospitais públicos e ou conveniadas ao SUS para atender as crianças com doenças variadas.

O objetivo da lei é propiciar aos doentes que passam dias entediantes e desanimados e com um grande período de ansiedade, momentos de lazer, através da leitura e colaborando com o passar do tempo e consequentemente com sua melhora.Em sua justificativa quando apresentou o projeto de lei, o parlamentar mencionou que com a lei em vigor, os pacientes quanto às unidades de saúde terão ganhado tanto no campo preventivo, como no curativo, com a implantação das mini- bibliotecas, colaborando com um bom estado emocional, tratamento e cura desses pacientes.

Segundo o deputado Zé Domingos (DEM) autor da lei, o doente tendo que esperar e suportar o tratamento e sua recuperação vive um tempo diferente do relógio. O tempo psicológico do enfermo varia de situação para situação, de momento para momento e de indivíduo para indivíduo. Além disso, o acompanhante do mesmo modo tem preocupações causadas pelo temor da doença contraída pelo seu familiar, juntando-se ainda a ansiedade pelos negócios, afazeres, demais parentes e seu lar. “Acolher este paciente se tornar amigo dele, deixa-lo confiante e oferecer-lhe entretenimento e conforto psicológico também é um dever”, disse destacando ainda que “bom livros poderão dar esperança e encorajamento e ainda influenciarão no estado emocional do paciente. Isso porque quando somos motivados por sentimentos agradáveis e bons pensamentos usufruem de vantagens emocionais com possibilidade de aceitarmos melhor as horas de tédio e os momentos de ansiedade”.

A literatura que deverá ser implantada é de cunho infanto-juvenil e precisará ser capaz de minimizar o estado de tensão que envolve o paciente em tratamento de saúde e seus respectivos familiares. O empréstimo deve ser livre e gratuito e a organização dos serviços, normas, procedimentos e rotinas operacionais serão estudados com particularidade por cada unidade de saúde. Os livros poderão ser doados pela comunidade, grupos e patrocinadores.

Outro ponto que não está dentro da lei, mas o deputado salientou é que o hospital poderá implantar o sistema de carrinhos-biblioteca que acondicionam o acervo e percorrem pelas dependências dos hospitais usando de uma metodologia previamente estruturada pela equipe de monitores da instituição. O intuito é atrair o paciente para a leitura, pois este pode estar desanimado com as conseqüências da doença.

O importante destacou Zé Domingos é que cada instituição se prepare para este atendimento. “Sabemos que haverá um custo inicial para a implantação da mini-biblioteca, o que é uma preocupação fundamental, mas vale o custo–benefício. É um elemento menor quando o retorno gerar um bem maior.”, finalizou o parlamentar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Escolher ou ser escolhido por uma profissão?

Por Ana Paula Porto Noronha

Ultimamente tem-se ouvido falar bastante em escolha profissional e, nesta época do ano, especialmente, o tema fica ainda mais em evidência, considerando a aproximação com as provas de grandes universidades públicas. Gosto do tema, e inclusive, é sobre ele que venho me dedicando nos últimos dois anos. A orientação profissional é um processo complexo de tomada de decisão, que envolve fatores variados, dentre eles o autoconhecimento e o conhecimento das realidades profissionais. Neste particular, incomoda-me saber que apenas uma parcela muito pequena da população de jovens em idade de escolha, tem efetivamente a oportunidade de escolher. Os demais, ou seja, a maioria, nem sequer sonha em exercitar as atividades pensadas, já que com alguma sorte, são escolhidos pelo mercado de trabalho. Outros deles, nem escolhem, e nem são escolhidos. Tomando este problema social como referência, é que procurei apresentar o projeto de uma ONG que trabalha com aquela parcela mais carente da população. Com vocês, a ONG AMIGOS DO SABER!!!

É uma organização não governamental sem fins lucrativos, fundada por Debora Martins da Cunha em 2004, no Rio de Janeiro, com o objetivo de oferecer à população carente ferramentas para o crescimento intelectual e cultural, aliado com um intenso trabalho de combate a fome e a pobreza. Estes objetivos, estão pautados na nossa missão, princípios e valores:

Redução do índice de analfabetismo; Integração de seus membros ao trabalho comunitário; Celebração de convênios com entidades da sociedade para a realização de cursos e seminários para qualificar pessoas em face do avanço tecnológico; Promoção do desenvolvimento econômico social e combate à pobreza.

Princípios:

Contribuir para a inclusão social realizando ações educativas e atividades sociais sem discriminação de etnia, gênero, orientação sexual e religiosa, bem como a portadores de deficiência; Promover a solidariedade por meio da participação voluntária, estabelecendo a integração, o respeito e a cooperação internamente e junto aos públicos com os quais atuamos; Agir com ética e qualidade no cotidiano das nossas ações.
Qual carreira seguir? Você já está decidido? Especialistas dão dicas de como escolher a profissão com tranquilidade

Já estamos no quase no segundo semestre, época de vestibular. Você está decidido quanto à carreira que pretende trilhar daqui para frente? Ou tem uma "vaga idéia"? Quer algo em Humanas, mas está indeciso entre Jornalismo e História? Ou prefere Exatas, mas se divide em Matemática e Engenharia Mecatrônica? Medicina? Pedagogia? Ou ainda, Quiropraxia! Não escolheu? Bem, fique tranqüilo. Decidir por uma profissão não precisa ser um monstro de sete cabeças. E não só isso. Essa é uma "angústia" comum a todos os jovens que entram na universidade.

Hoje em dia, o leque de opções para os pré-universitários é muito mais amplo do que há alguns anos. Até algum tempo, o número de profissões era restrito a poucas grandes áreas. Certamente você já deve ter ouvido de seus avós que o melhor mesmo é optar por carreiras mais "garantidas", como Direito, Medicina ou Engenharia. Nos últimos 20 anos, porém, o mercado de trabalho, cada vez mais, tem buscado profissionais mais especializados, que conhecem os detalhes de determinado setor (vide a multiplicação das "Engenharias", antes restritas a Civil, Mecânica, etc).

"O processo é muito mais complexo atualmente. A realidade externa agrava ainda mais a situação, tornando a decisão muito mais séria e aflitiva", explica a coordenadora do Serviço de Orientação Profissional do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), Yvette Piha Lehman.

Some, portanto, as dificuldades naturais da escolha à crescente pressão gerada pelas crises da economia. O resultado é uma bola de neve, que cresce a cada novo fator adicionado - ambição, família, amigos. "Esse contexto atual tem pesado bastante nos jovens. Escolha é um processo de exclusão e se torna um peso para eles. A realidade impede uma escolha mais tranqüila".

Se o seu pensamento imediato foi de trocar o seu sonho por algo rentável, tome cuidado. Abandonar sua meta pode se tornar um peso muito maior do que o medo do fracasso futuro. "Hoje, a tendência do jovem é abrir mão das coisas que ele quer, mesmo sabendo que precisa defendê-las. A sensação que ele tem é que precisa buscar aquilo que vai dar garantias no futuro", esclarece Yvette. O ideal, obviamente, é combinar aquele seu desejo secreto de infância (astronauta?) com algo que possa dar algum retorno financeiro. "Esses fatores não são excludentes. É preciso ter confiança para agenciar o prazer com os rumos do mercado".

Portanto, é preciso estar preparado. Como você deve imaginar, não existem "fórmulas mágicas" para determinar qual profissão é mais adequada ao perfil de cada estudante pré-universitário. Sendo assim, não tenha pressa para escolher sua carreira. Se você já sabe em qual área se sente melhor, procure conhecer seus cursos e, principalmente, o dia a dia dos profissionais. Assim, é possível evitar surpresas.

"A primeira coisa a fazer é conhecer a carreira. Buscar informações sobre o curso, sobre a profissão, mercado de trabalho", orienta a coordenadora do Laboratório de Orientação Profissional da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Dulce Helena Soares, autora do livro "A escolha profissional: do Jovem ao Adulto".

"Nós vemos muitos jovens desistindo da carreira porque idealizam determinados cursos. Busque informações concretas. Entreviste os profissionais, visite locais de trabalho, conheça a rotina", alerta Dulce. Se você já tem certeza da carreira que deseja trilhar e conhece os detalhes do exercício da profissão, passe agora à segunda fase: coloque em prática o seu auto-conhecimento.

Compare as informações que coletou com o seu objetivo profissional. E não se esqueça de pesar na balança absolutamente tudo - prós e contras. "O mais importante é a informação profissional. Em um segundo momento é que ele vai avaliar se gosta mesmo, ou não, da carreira".

Ok, reconhecemos que é mesmo um momento difícil. As pressões vêm de todos os lados. Além do mercado e da própria cobrança, existe ainda a pressão dos amigos, da família, dos professores. Mas lembre-se, escolher uma profissão não precisa ser um momento de crise.

É natural que você se sinta angustiado, uma vez que tomará uma decisão importante para sua vida. Procure fazer dessa fase algo marcante, e não se preocupe em acertar logo na primeira tentativa. "A escolha não é para toda vida. Cada vez mais as pessoas estão mudando de profissão. Pense que mudar a rota não é um erro, é apenas uma passagem", encerra Dulce.

(
www.amigosdosaber.org.br)

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Diversidade e Amor

Por Kleber Godoy
Bem, dando uma continuação no tema da homossexualidade e até mesmo aprofundando e expandindo um pouco o assunto, gostaria de compartilhar com vocês um texto publicado em 09/10/2007 no The New York Times .
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Para alguns idosos gays, os asilos representam uma volta ao armário
Dan Frosch contribuiu com reportagem / Tradução: George El Khouri Andolfato

Mesmo agora, aos 81 anos e com sua memória começando a desaparecer, Gloria Donadello lembra de sua dolorosa escaramuça com o preconceito em um centro de vida assistida em Santa Fé, Novo México. Sentada com pessoas que considerava amigas, "pessoas que riam e faziam certos tipos de comentários, eu lhes disse: 'Por favor, não façam isto, porque sou gay'".

O resultado de sua franqueza, disse Donadello, foi rápido e impiedoso. "Todos olharam horrorizados", ela disse. Não mais incluída nas conversas ou bem-vinda às refeições, ela caiu na depressão. Medicamentos não ajudavam. Com sua saúde emocional em deterioração, Donadello se mudou para uma comunidade adulta próxima que atende gays e lésbicas.

"Eu me sentia como uma pária", ela disse em seu novo lar. "Para mim, foi uma escolha entre vida ou morte."

Idosos gays como Donadello, que vivem em asilos, centros de vida assistida ou que recebem assistência domiciliar, relatam cada vez mais que foram desrespeitados, afastados ou maltratados de formas que variam de doloroso a mortal, até mesmo levando alguns a cometerem suicídio.

Alguns viram seus parceiros e amigos serem insultados ou isolados. Outros vivem com medo do dia em que dependerão de estranhos para grande parte de suas necessidades pessoais. O temor por si só pode ser danoso, física e emocionalmente, disseram médicos, geriatras e assistentes sociais.

O apuro dos idosos gays chegou até uma geração inteira de gays e lésbicas, preocupados com seu próprio futuro, que deram início a um esforço nacional para educar os provedores de atendimento sobre o isolamento social, até mesmo sobre a discriminação aberta, que clientes lésbicas, gays, bissexuais e transexuais enfrentam.

Várias soluções estão surgindo. Em Boston, Nova York, Chicago, Atlanta e outros centros urbanos, estão surgindo os chamados LGBT Aging Projects (projetos de idosos lésbicas, gays, bissexuais e transexuais), para treinamento de provedores de atendimento de longo prazo. Também há gerentes assumidamente gays de casos geriátricos que podem guiar os clientes a serviços compassivos.

Ao mesmo tempo, há uma ação para atendimento separado mas igual. Nos subúrbios de Boston, o Chelsea Jewish Nursing Home começará a construir em dezembro um complexo que incluirá uma unidade para idosos gays e lésbicas. E as Stonewall Communities em Boston começaram a vender casas projetadas para gays idosos, com serviços de apoio semelhantes aos centros de vida assistida, disponíveis tanto para novos compradores de imóveis como para aqueles que moram em suas próprias casas.

"Muitas vezes os gays evitam buscar ajuda por temerem a forma como serão tratados", disse David Aronstein, presidente das Stonewall Communities. "A menos que vejam ações afirmativas, eles presumirão o pior."

A homofobia direcionada aos idosos tem muitas faces.

Os enfermeiros de atendimento domiciliar devem ser lembrados a não usarem luvas em momentos impróprios, por exemplo, quando abrem a porta da frente ou arrumam as camas, quando não há evidência de infecção com HIV, disse Joe Collura, um enfermeiro da maior agência de atendimento doméstico em Greenwich Village, um bairro de Manhattan.

Uma lésbica que deu entrada em um quarto duplo em um centro de reabilitação em Chicago foi recebida por uma companheira de quarto que gritava: "Tire o homem daqui!" A paciente lésbica, Renae Ogletree, pediu a um amigo que a levasse para outro lugar.

Às vezes resulta em tragédia. Em um asilo em uma cidade da Costa Leste, um homem assumidamente gay, sem família ou amigos, foi recentemente transferido de seu andar para acalmar os protestos de outros moradores e seus famílias. Ele recebeu um quarto entre os pacientes com incapacidades severas ou demência. O asilo chamou Amber Hollibaugh, atualmente uma estrategista sênior da Força-Tarefa Nacional de Gays e Lésbicas e autora do primeiro currículo de treinamento para asilos. Hollibaugh disse que assegurou ao homem de 79 anos que uma solução mais humana seria encontrada, mas ele se enforcou. Ela não quis identificar o asilo, porque ainda presta consultoria para ele, entre outros lugares.

Apesar deste resultado ser raro, transferir moradores gays para aplacar outros é comum, disse a dra. Melinda Lantz, chefe de psiquiatria geriátrica do Beth Israel Medical Center em Nova York, que passou 13 anos em um posto semelhante no Jewish Home and Hospital Lifecare System. "Quando você se vê sem opção e precisa transferir uma pessoa por estar sendo atacada, você acaba a colocando junto com pessoas que estão bastante confusas", disse Lantz. "Esta é uma realidade básica terrível."

A reação mais comum, em uma geração acostumada a estar no armário, é um recuo para a invisibilidade que foi necessária durante grande parte de suas vidas, quando a homossexualidade era considerada tanto um crime quanto uma doença mental. Um parceiro é identificado como irmão. Nenhuma imagem ou livro com temática gay é deixado à vista.

Os idosos heterossexuais também sofrem as indignidades da velhice, mas não na mesma extensão, disse Lantz. "Há algo especial em ter que ocultar esta parte de sua identidade em um momento em que toda sua identidade está ameaçada", ela disse. "Este é um caminho mais rápido para a depressão, para o fracasso em prosperar e até para uma morte prematura." O movimento para melhorar as condições para os idosos gays é movido pela demografia. Há cerca de 2,4 milhões de americanos gays, lésbicas ou bissexuais com mais de 55 anos, disse Gary Gates, um pesquisador sênior do Instituto Williams da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Tal estimativa foi extrapolada por Gates usando dados do censo que contam apenas casais de mesmo sexo juntamente com outros dados do governo, que contam casais gays e indivíduos. Entre os casais de mesmo sexo, o número de homens e mulheres gays com mais de 55 anos quase dobrou de 2000 a 2006, disse Gates, de 222 mil para 416 mil.

A Califórnia é o único Estado com uma lei que diz que idosos gays têm necessidades especiais, como outros membros de minorias. Uma nova lei encoraja o treinamento de funcionários e prestadores de serviço que trabalham com idosos e permite financiamento do Estado para projetos como centros para idosos gays.

A lei federal não possui proteções antidiscriminatórias para os gays. Vinte Estados proíbem explicitamente tal discriminação em moradias e prédios públicos. Mas nenhum processo de direitos civis foi impetrado por gays contra asilos, segundo o Fundo Lambda de Defesa Legal, que cuida e monitora tais casos. Os querelantes potenciais, diz a organização, são frágeis ou assustados demais para tomarem alguma medida.

Segundo especialistas, o problema aumenta porque a maioria dos idosos gays não declara sua identidade, e as instituições raramente se esforçam para descobrir quem eles são para preparar seus funcionários e moradores para o que pode ser uma situação não familiar. É neste ponto que Lisa Krinsky, diretora do LGBT Aging Project em Massachusetts, dá início às suas sessões de treinamento de "competência cultural", como um no mês passado no North Shore Elder Services em Danvers, fora de Boston.

Formulários de ingresso no atendimento de longo prazo apresentam opções de estado civil e parentesco. Mas nenhum dos itens oferece a opção de gay ou lésbica. Krinsky sugeriu perguntas como "Quem é importante em sua vida?"

Nos dois últimos anos, Krinsky treinou mais de 2 mil funcionários de agências que atendem idosos em Massachusetts. Ela lhes apresentou os problemas comuns e os incitou a buscarem soluções.

Um gay demitiu seu enfermeiro de atendimento domiciliar. O gerente do caso perguntou o motivo? O paciente poderia estar recebendo leituras indesejáveis da Bíblia de alguém que considera a homossexualidade um pecado. E quanto a lésbica no centro de vida assistida que recusava visitantes? Talvez ela tenha medo de que a aparência de seus amigos a denuncie para os demais moradores.

"Nós precisamos ser abertos e sensíveis", disse Krinsky, "mas não envolvê-los em uma bandeira de arco-íris e fazê-los marchar em uma parada".

Alguns idosos gays optam pela franqueza como a forma mais rápida e menos dolorosa de encontrar atendimento compassivo. Este é o caso de Bruce Steiner, 76 anos, de Sudbury, Massachusetts, cujo parceiro de 71 anos, Jim Anthony, sofre de mal de Alzheimer há mais de uma década e não consegue mais se alimentar sozinho e nem falar.

Steiner resiste a colocar Anthony em um asilo, apesar das várias hospitalizações no ano passado. O atendimento foi irregular, disse Steiner, que não sabe se a homossexualidade foi um fator. Mas ele decidiu não se arriscar e contratou um gerente de caso gay que o ajudou a realizar uma "seleção".

Eles escolheram uma agência de atendimento domiciliar com reputação de tratar bem clientes gays. Na preparação para um futuro desconhecido, Steiner também visitou vários asilos, "lhes dando a oportunidade de me encorajarem ou desencorajarem". Seu favorito "é um dirigido pelas irmãs carmelitas, acima de tudo por terem senso de humor".

Elas são a exceção, não a regra.

Jalna Perry, uma lésbica e psiquiatra de 77 anos em Boston, é assumida, ela disse, mas não divulga o fato, que não parece natural para alguém de sua geração. Perry, que usa cadeira de rodas, passou algum tempo em centros de vida assistida e asilos. Lá, ela disse, ela mantinha a guarda erguida o tempo todo.

Perry informou sua sexualidade para algumas poucas moradoras do centro de vida assistida -mulheres profissionais, artistas, que ela imaginou que a aceitariam. Mas mesmo com elas, ela disse, "você não conversa sobre coisas gays". Em grande parte ela guarda isto para si mesma. "Você acaba formando juízo sobre a pessoa", disse Perry.

Mais difícil foi uma enfermeira que era gentil com as outras pessoas, mas rude e de mão pesada quando ajudava Perry em suas necessidades pessoais. Será que a enfermeira suspeitava e desaprovava? Com um enfermeiro que era gay, Perry disse que se sentia "extremamente confortável".

"Exceto por aquele enfermeiro, eu era bastante solitária", ela disse. "Seria bom se mais alguém fosse assumido entre os moradores."

Tal solidão é fonte de temor para os membros da Prime Timers, um grupo social de Boston para idosos gays. Entre os regulares, que se reúnem para almoçar uma vez por semana, estão Emile Dufour, um ex-padre de 70 anos, e Fred Riley, 75 anos, que manteve um casamento heterossexual por 30 anos. O casal está junto há duas décadas e se casou em 2004. Mas a posição deles, caso precisem de atendimento, é esconder sua homossexualidade, como fizeram por metade de suas vidas, em vez de enfrentarem as críticas e sussurros.

"Apesar de hoje estar forte", disse Riley, "quando estiver no portão do asilo, a porta do armário fechará com força atrás de mim".

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A Vida, o Crescimento do País e a Maternidade

Por Ana Paula Porto Noronha

Há algumas semanas saiu uma reportagem interessante na Veja, que abordava a diminuição da população mundial, em especial da européia. As explicações para o fenômeno são variadas e podem ser discutidas sob as perspectivas sociológicas, físicas, culturais, dentre outras. Todos os aspectos são relevantes e merecem discussão aprofundada. Abaixo está o texto e, em seguida, meus comentários.

Na ordem natural da vida, cada geração deveria gerar descendentes suficientes para repor as mortes e ainda acrescentar alguns indivíduos à população. A União Européia inverteu essa lógica da natureza. De acordo com dados divulgados neste mês pelo Instituto de Política Familiar, sediado na Espanha, pela primeira vez na história o número de europeus com mais de 65 anos ultrapassou o de menores de 14 anos. Numa sociedade de população estável, espera-se uma proporção igual de crianças, jovens e adultos, mas menor de idosos em comparação a todos os outros grupos populacionais. O que está ocorrendo é a soma de dois fatores conhecidos. O primeiro é a queda na taxa de fecundidade dos europeus. A mínima para repor as perdas naturais de uma população é de 2,1 filhos por mulher. A média européia é de 1,37. O segundo fator é o aumento na expectativa de vida decorrente da melhoria das condições de vida e de assistência médica. Menos bebês e mais velhos é uma equação com sérias conseqüências populacionais a médio prazo. Em meados deste século, a Alemanha e a Itália terão menos habitantes que hoje. A França e a Espanha devem permanecer estáveis, mas só se continuarem a atrair imigrantes. Do ponto de vista populacional e cultural, a Europa Ocidental estará irreconhecível em duas ou três gerações.

O envelhecimento da população e a falta de bebês não são uma exclusividade européia. Trata-se de tendência generalizada entre os países ricos e desenvolvidos. Na Coréia do Sul e na Austrália, a taxa de fecundidade caiu abaixo da linha de reposição da população. O Japão apresenta o maior porcentual de idosos em relação ao total de cidadãos – 28%. Dos membros do G8, o grupo dos países mais ricos do mundo, apenas os Estados Unidos têm uma taxa de fecundidade capaz de manter a população estável. Isso, somado à imigração, garante o crescimento do número de americanos. Na Alemanha, na Espanha, na Itália e no Japão, a falta de bebês e o aumento no contingente de idosos são temas discutidos em tons apocalípticos. Não é sem razão. Tamanho e perfil da população costumam ser fatores relevantes no desempenho econômico de uma nação. Uma maneira clássica de calcular o crescimento do PIB potencial de um país é somar os índices de aumento da força de trabalho e da produtividade. Se a força de trabalho crescer 1% e a produtividade 2% em determinado ano, por exemplo, o aumento do PIB potencial será de 3%. Essa equação se explica pelo impacto que a falta de bebês pode ter sobre a força produtiva de uma nação no futuro. Menos trabalhadores significa menos produção de riqueza, menos gente para consumir e, o que é mais perturbador, menos contribuintes para manter o sistema de previdência, sobrecarregado pela multidão de aposentados.

Também nesse aspecto o planeta não é igualitário. Apenas quatro em cada nove pessoas vivem em um país com taxa de fecundidade abaixo do índice de reposição. As taxas de fecundidade continuam elevadíssimas nos países mais miseráveis da Ásia e da África. Isso pode mudar se essas sociedades se modernizarem. A história mostra que avanços na educação, mudanças no papel social da mulher e melhorias nas condições de saúde derrubam a taxa de fecundidade. "Na fase em que a Europa construiu sua hegemonia cultural e econômica, o número de europeus cresceu de maneira espantosa. No ano de 1900, um em cada quatro habitantes do mundo era europeu", disse a VEJA o sociólogo austríaco Meinhard Miegel, diretor do Instituto para Economia e Sociedade de Bonn, na Alemanha. Hoje, a proporção é de um em cada nove. O futuro do sistema de pensões tornou-se uma tormenta global, especialmente para alemães, italianos e japoneses, moradores de países com crescimento populacional negativo ou próximo disso. No Japão, há quatro trabalhadores na ativa para cada aposentado. Em 2050, estima-se que a proporção será de três para dois. Na Alemanha, a Previdência representa o maior gasto social do estado. Em países com sistema assistencial precário, o efeito da baixa taxa de fecundidade adquire contornos trágicos. Na China, com média de apenas 1,7 filho por mulher, os idosos dependem quase que unicamente dos filhos ou netos. Devido à política do filho único, o país enfrenta hoje uma distorção: em determinada fase da vida, um jovem adulto tem de sustentar sozinho dois pais e quatro avós. Isso em um país em que a expectativa de vida aumentou de 40,8 anos para 71,5 anos em apenas cinco décadas e em que há um desequilíbrio de gêneros: nascem 100 meninas para cada 118 garotos. Nesse ritmo, a China pode tornar-se um país com mais velhos do que crianças antes mesmo de atingir o pleno desenvolvimento. Essa tendência demográfica é um dos motivos pelos quais a China dificilmente poderá ultrapassar os Estados Unidos como a principal potência mundial.

A falta de bebês tem efeitos inesperados no modo de vida de um país. Na Toscana, a região de paisagens deslumbrantes no norte da Itália, cuja capital é Florença, o saldo entre nascimentos e mortes resulta na perda de 8.220 habitantes por ano. A conseqüência disso é o acelerado esvaziamento das áreas rurais. Não falta apenas mão-de-obra para cuidar da terra. Os proprietários também estão ausentes. É freqüente que o filho único não seja capaz de manter a fazenda herdada dos pais ou avós. No momento, a região está repleta de estrangeiros, sobretudo americanos e ingleses. Eles compram as vilas abandonadas, cujos preços caíram bastante nos últimos anos devido ao excesso de oferta, para usá-las nas férias.

Destaco neste momento, a perspectiva mais encantadora da discussão para mim, o prazer da maternidade. Experimentar a maternidade é bastante complexo e exige um esforço na direção de procurar ser uma pessoa melhor. Sim, pode parecer piegas, mas há uma condição nesse sentido, para que os filhos sejam minimamente sadios psicologicamente e seres humanos interessantes. Agora, cá entre nós, exercer a maternidade/paternidade exige talento; estabelece que você esteja disponível para o outro; implica na capacidade de não ser o próprio centro de sua vida em muitas das situações cotidianas; e, prioritariamente, ser mãe/pai significa ser capaz de amar. Preciso deixar claro que não estou falando simplesmente da capacidade de gerar filhos. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que meu filho nasceu e da alegria que senti quando olhei para ele. Não tenho dúvida de que esta é uma experiência que pode ser transformadora. Neste dia dei-me conta de que os versos se Rubem Alves faziam sentido para mim e que a cada dia, construiria uma nova sonata.

Compreendi que a vida não é uma sonata que, para realizar sua beleza, tem de ser testada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e de amor justifica a vida inteira.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Por Um Futuro Sendo Construído Diferente

Por Kleber Godoy

“Casais gays se tormam mais visíveis em ´áreas´conservadoras”, diz a redação do Gonline. Segundo a pesquisa feita nos EUA, através do censo, pares homossexuais são mais vistos em todas as áreas dos EUA, “mas o crescimento se nota mais em áreas dominadas por uma sociedade conservadora”. Segundo os dados dos pesquisadores do Wlliams Institute, da Escola de Lei da UCLA, o crescimento dessa visibilidade se deve, em parte, ao crescimento da aceitação social.

Acredito que em grande parte do mundo haja, hoje em dia, uma maior aceitação da homossexualidade e isso permite uma maior exposição, se comparado à décadas anteiores. No entanto, é lento e tímido este crescimento, sendo a hipocrisia presente e enraizada na mente das pessoas a tal ponto que esta aceitação nem sempre é pura, mas sim um “tolerar” que mascara e diz “tudo bem”. Deve ser um dos aspectos da sociedade pós-moderna um maior “tolerar”, já que a vida é tão rápida, dinâmica e os relacionamentos humanos tão virtuais. No entanto, é um progresso. E falando dessa sociedade atual, a notícia, vindo dos EUA, não podia caber melhor ao comentário.

Em contrapartida, a esperança de que os pré-conceitos (em geral) sejam banidos, é grande. Eu acredito em um mundo melhor, sem guerras entre tribos, sem matar por causa de um Deus diferente, sem mais uma notícia no jornal que diz “garoto gay espancado em avenida da cidade”. E uma notícia que me deixou tremendamente contente foi a que falava de uma revelação de J. K. Rowling, escritora da série “Harry Potter”, neste mês de Outubro. Ela estava em um evento para promover o último livro da série no Carnegie Hall de Nova York e um fã a questionou sobre o personagem de Albus Dumbledore, talvez o mais querido da série, e sua vida amorosa, já que o personagem fala tanto da força do amor. Então ela revelou: “Dumbledore é gay”.

Ela ainda revelou que ele encontrou seu grande amor, uma peça importante nas histórias, uma história de amor que terminou não muito bem, mas ele encontrou. Para surpresa da escritora, houve aplausos de toda platéia e ela disse “Se soubesse que a notícia os faria tão felizes, teria dito antes”. Ela ainda completou em suas entrevistas posteriores: "Nunca foi novidade para mim que um homem corajoso e brilhante possa amar outros homens”.

Enfim, onde quero chegar? A série de livros da escritora está disseminada em todo planeta, milhões e milhões de fâs lêem suas histórias a cada livro lançado, sendo que na sua maioria estão crianças e jovens, assim como seus pais. Para quem não acompanha, seu último livro tornou-se o mais vendido em menos tempo na história, sendo 11 milhões de cópias vendidas nas primeiras 24 horas na Grã Bretanha e nos EUA. Todos os livros da série já acumulam quase 400 milhões de exemplares indo para as casas das pessoas. Imagine então, querido leitor, o impacto nesses fâs?

Em uma conversa com um amigo, também leitor da série, falávamos sobre esses dados e ficamos muito contentes com a revelação. As histórias escritas por Rowling trazem ensinamentos preciosos em seu interior, sejam de amor, de amizade, de paz e de que o bem é a melhor opção. É muito “humano”, eu diria. Para dar um exemplo, em uma das histórias, um personagem traiu um de seus amigos e é capturado. Ele diz mais ou menos assim: “entendam, fui ameaçado, o que mais eu poderia fazer? O que você faria se estivesse no meu lugar?”. E o seu interlocutor rebate: “eu teria morrido, mas não trairia meu amigo!”. Ora, imagine isso sendo lido por uma criança de 8, 9, 10 anos??? Vale ressaltar que eu não desejo que nenhuma criança se mate, mas imagine esse “valor” sendo interiorizado por toda uma geração de jovens!

Logo, a revelação de Rowling sobre a homossexualidade vem só a acrescentar ainda mais. Na conversa com meu amigo, chegamos à conclusão de que é a maior revelação de Rowling, assim como um marco na literatura. Ele me disse “tem tudo a ver no tema contra o racismo, quebra de classes... e também descriminação de todo tipo, não podendo faltar a descriminação sexual...”. Com certeza, uma contribuição para o futuro. Precisa-se de mais pessoas que usem de seu poder para mostrar coisas boas ao mundo. A hipocrisia reina em muitos contextos e vários líderes, sejam políticos ou religiosos, tão cheios de dogmas ou de leis e regras diplomáticas e sociais aceitáveis, mandatos e acordos, imagens a mostrar... não se importam, não podem ou não querem fazer isso.

Para encerrar, me deparei com uma notícia sobre a repercussão da revelação de Rowling entre os fâs. E os fâs aprovam!! No site de relacionamentos Orkut (http://www.orkut.com/), li muitos comentários positivos. Muito menino de 12, 13 anos dizendo “ah, por mim tudo bem, ele é genial do mesmo jeito. Não muda nada.”. Em poucos dias, havia 6.000 comentários sobre o tema em dois sites, os mais populares sobre Harry Potter, o http://www.leakynews.com/ e o http://www.mugglenet.com/. "Em geral as pessoas estão contentes por ela [a autora] ter feito isso", disse Melissa Anelli, coordenadora do primeiro site. Ela diz ainda que houve pouquíssima rejeição. Ela ainda completa: "Acho ótimo, acho que a forma como ela lidou com isso foi de que isso era só mais um fato sobre ele, da mesma forma como ele é professor, gosta de boliche e de música de câmara. E que se mais gente fosse assim teríamos menos problemas hoje em dia".

*J. K. Rowling durante sessão de autógrafos nos EUA; ela assinou 1.600 cópias em 80 escolas de Nova Orleans (Foto: Bill Haber)



quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O mundo precisa de gentileza

Por Ana Paula Porto Noronha

Tenho me dado conta de que o mundo está precisando de mais gentileza. Gentileza é, de acordo com o Grande Dicionário Larousse Cultural, delicadeza, amabilidade, cortesia... As pessoas têm sido pouco gentis umas com as outras. Observo no contexto onde trabalho, não raras vezes, que alguns funcionários são vistos como parte do mobiliário, de tal modo que, ao passarem por elas as pessoas não se preocupam com as palavras básicas que permeiam os códigos de educação, como o “bom dia”, “obrigada” e “até logo”. Não acho que isto resuma simplesmente o que é ser gentil, mas é um bom início para que as pessoas observem mais suas práticas diárias.

Tem uma funcionária que vai trabalhar toda produzida, com direito a maquiagem e cabelo arrumado por bobis. Quando passo por ela e lhe elogio, sinto sua gratidão, assim como sei que ela passaria boa parte da manhã me contando sobre seu final de semana. Talvez seja isso. As pessoas estão sempre sem tempo... A rotina... As exigências... A preocupação com a produção as deixa com pressa e com medo de perder tempo se tiver que olhar para o outro. Quanta tolice! “Perder tempo”, se é que podemos falar assim, com o outro, só nos torna seres melhores.

Também concebo o “ser gentil” como uma forma de respeito. E, a propósito, a este respeito, em conversa com uma amiga também professora universitária, com muitos anos de experiência docente, procurei refletir sobre as características de um “bom aluno”. Há muitas pesquisas científicas que tratam das características do bom docente e, pasme você, ou não, dentre elas, as características de personalidade estão lado a lado com o domínio do conhecimento. Ou seja, ser um bom docente implica, na mesma medida, em conhecer o assunto e possuir características que gerem bons relacionamentos interpessoais.

As pesquisas em tornos dos alunos, em geral, tratam basicamente de habilidades cognitivas. Como dizia, como síntese da conversa com minha amiga, definimos que igualmente ou mais importante que seu potencial cognitivo, o aluno precisa ter atitudes positivas. Sim, pode parecer estranho, mas é muito mais fácil e prazeroso trabalhar com alunos que tenham atitudes pró-ativas, que aqueles somente inteligentes. Infelizmente tenho encontrado, mais do que gostaria, pessoas desta última natureza, qual seja, com boas condições das suas capacidades intelectuais, mas absolutamente pobres no exercício da gentileza, do respeito, do amor ao próximo, do compromisso com o outro e consigo mesmo.

O texto de Malvar Fonseca pareceu-me interessante e em razão disso, gostaria de apresenta-lo.

“Há algum tempo, li não sei onde um episódio ocorrido com uma escritora que foi passar dois meses numa região montanhosa de um país europeu, num período do ano em que era freqüente acontecerem grandes tempestades; ia com o propósito de conhecer os costumes da gente do campo e colher assim material para um romance. Quando estava desfazendo as malas no pequeno chalé que alugara, com a ajuda da caseira que morava perto dali, desabou um grande temporal e as luzes se apagaram. A caseira acendeu umas velas e, enquanto atiçava o fogo na lareira, bateram à porta. Era um rapazinho de uns doze anos, conhecido da caseira. Depois de recuperar o fôlego, o menino disse:

- Vim ver se está tudo bem com a senhora.

A caseira agradeceu e apresentou-o à escritora. Como a ventania aumentasse e a chuva caísse com mais força, o rapaz perguntou à recém-chegada:

- A senhora não tem medo?

A escritora ia dizer que não, mas a caseira, que evidentemente não estava nem um pouco assustada, atalhou-a:

- É claro que ela estava morrendo de medo, assim como eu. Mas agora temos um homem aqui, e tudo vai ficar bem.

Quando a tormenta passou, o menino despediu-se e saiu, capengando do modo mais garboso que podia.

A escritora ficou pensativa e perguntou-se: "Por que não me ocorreu responder à pergunta do menino como a caseira?" E evocou tantas situações da sua vida em que se mostrara pouco sensível às necessidades dos outros por estar absorvida nas suas coisas. "Que havia naquela mulher simples do campo - continuou a pensar - que a tornava capaz de transformar um menino aleijado num homem confiante?" E teve de reconhecer: simples detalhes de gentileza e afeto.

Pois é precisamente no convívio com as outras pessoas que a atenção para os detalhes se reveste de um significado especial. Merece até um nome particular: delicadeza, que reclama uma grande diligência e grandeza de alma. É ela que permeia todas as virtudes próprias da convivência, como a cordialidade, a afabilidade, o acolhimento, o perdão, a paciência, enfim, a caridade. Manifesta-se principalmente, em palavras de Machado de Assis, "nesse desejo de bem servir que é a alma de toda a cortesia". Nunca deveria dar-se motivo para o comentário cético daquele que dizia que o lar é o centro geométrico das grandes dedicações e das pequenas desatenções. Mas trata-se de exercitar a "arte de ser amável" não apenas no sentido ativo, mas também no sentido passivo, isto é, facilitando aos outros que nos queiram bem. Quando penso nisto, lembro-me sempre de um cantor nacional que, há uns trinta anos, fazia um programa de TV com muito sucesso e que, no fim de cada apresentação, se despedia com as mesmas palavras: "Continuem a querer-me bem, que não custa nada". É isso o que quero dizer com ser amável no sentido passivo: que, pela nossa gentileza, não custe aos outros nada ou quase nada querer-nos bem.”

Fonte: "Coisas Pequenas", Editora Quadrante, São Paulo, 1996

Em síntese, exercitar a gentileza é possível; não dói; não tem contra-indicações; dissemina o amor; oferece bons modelos de relacionamentos interpessoais; promove a saúde mental, ao mesmo tempo em que favorece a física; deixa-nos mais felizes (suponho que pesquisadores tenham bons resultados a respeito disso) e reafirma a necessidade de se encarar cada dia como único. Prefiro escrever textos a partir dos quais possa fazer relações com a minha vida. Este texto, em especial, me possibilitou isto. Nesse sentido, quero oferecê-lo ao Kleber, meu parceiro de blog, e uma dessas pessoas que você encontra na vida e amansa seu coração ao ver que é um exemplo de aluno com excelentes capacidades cognitivas e é muito gentil!!!


Gentileza
Marisa Monte

Apagaram tudo

Pintaram tudo de cinza

A palavra no muro

Ficou coberta de tinta

Apagaram tudo

Pintaram tudo de cinza

Só ficou no muro

Tristeza e tinta fresca

Nós que passamos apressados

Pelas ruas da cidade

Merecemos ler as letras

E as palavras de Gentileza

Por isso eu pergunto

À você no mundo

Se é mais inteligente

O livro ou a sabedoria

O mundo é uma escola

A vida é o circo

Amor palavra que liberta

Já dizia o Profeta

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