sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Descobertas, dúvidas... e a ciência

Por Kleber A. B. Godoy

Logo após o término de uma das maiores aventuras literárias mundiais, milhões de pessoas ficam órfãs do bruxinho Harry Potter e sua turma, sendo que a série bateu recordes e mais recordes em vendas ao longo de seus 7 livros, traduzidos para dezenas de idiomas e lidos por pessoas de todas as faixas etárias.

Assim, fazendo um link entre o fenômeno literário e a psique, encontrei um texto interessantíssimo da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, professora da UFRJ e autora de "O Cérebro Nosso de Cada Dia" e de "O Cérebro em Transformação" onde faz uma interessante intersecção entre a sua leitura pessoal do último livro da série, publicado na segunda quinzena de Julho, e a explicação neurocientífica de se passar uma noite em claro apenas para se chegar ao final da história.

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Uma noite em claro com Harry Potter
Por Suzana Herculano-Houzel – Jornal da Ciência, em agosto de 2007

A escocesa J.K. Rowling consegue coisas fantásticas: fazer crianças lerem avidamente livros de 600 páginas, vender 8 milhões de livros em um só dia, ser lida por milhões de pessoas mundo afora ao mesmo tempo -e ainda deixar uma boa parcela dessas pessoas sem dormir para chegar logo ao fim da história, como eu (e aposto que não fui a única). Como a neurociência explica tamanho fenômeno?

Com duas palavras: ansiedade e prazer. Seguindo sábios conselhos do meu marido, fui à livraria na noite em que o livro começou a ser vendido, em vez de comprá-lo confortavelmente pela internet. Esperá-lo em casa teria me custado dois ou três dias de expectativa e o dilema de receber o livro justo no dia em que as crianças voltariam das férias com o pai; indo à livraria, eu poderia lê-lo imediatamente e receber as crianças já sabendo o final da história e, portanto, com meu tempo de férias disponível integralmente para elas.

Eu dispunha de três dias para a tarefa, mas o Potter de Rowling fez um estrago no meu cérebro -no bom sentido- e resolveu o assunto em uma única noite. Lá pelas duas da manhã, no meio do livro e na pior das enrascadas em que Potter se mete, meu córtex, na expectativa de descobrir a saída e o destino final do bruxo, resolveu ativar ao máximo o "locus coeruleus", fonte de noradrenalina, que inunda o resto do cérebro e o deixa acordado e atento, pronto para processar novas informações com rapidez e precisão. Nesse estado, qualquer sonolência desaparece: como adormecer requer por definição o desligamento do "locus coeruleus", não há força de vontade que desfaça o estado fabuloso de ansiedade, incompatível com o sono, em que a tensão da expectativa nos mete.

Como se não bastasse deixar o cérebro aceso, o "locus coeruleus" ativa também a área tegmentar ventral, que, com o aval do córtex interessado no assunto, distribui dopamina pelas regiões do cérebro que nos deixam motivados, dão saliência às informações processadas e ainda tornam o processo prazeroso. Resultado: com um assunto eletrizante a acompanhar, não só você perde o sono como acha isso ótimo. E assim eu adormeci feliz e satisfeita... às oito da manhã.

Se você precisa dormir à noite, portanto, a leitura do último Harry Potter é altamente desaconselhável. Em compensação, se você decidir abrir o livro, seu cérebro saberá mantê-lo acordado até a última linha. A neurocientista de plantão adverte: Harry Potter é prejudicial à sua sonolência!

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Suzana é muito esclarecedora, mas sinto que ao ler sua explanação não me identifiquei. Ou melhor, tive outra forma de reagir já que, ao lançamento do último livro da série Harry Potter, adiei em dois dias o início da leitura, sabendo que milhões de fãs pelo mundo afora, inclusive a Suzana, já haviam terminado na noite de lançamento. Isso mostra a individualidade humana, modos de reação diferentes e motivos vários para as ações. Situações que tem um significado muito particular. No caso, eu sabia que seria ruim a sensação desse fim.

Mas, no caso citado por ela, as descobertas científicas acerca do cérebro humano são realmente fascinantes. Assim, pensamos em quanto mais temos a descobrir sobre nós mesmos. Talvez alguns mistérios fiquem resguardados à escuridão, como no caso da tentativa (ou idéia) de se achar uma localização cerebral para o Inconsciente. E talvez estas devam realmente ficar ocultas. Lembrando sempre que o conhecimento cientifico, mesmo que muitos contrariem, não é o único conhecimento que se deve levar em conta, nem o único verdadeiro.

Falando em Inconsciente, porque será que esta foi a minha primeira escolha de publicação no blog? Talvez porque ainda estou em processo de elaboração de luto desde que terminei a última página daquele livro.

No final das contas, o melhor de tudo isso é que estamos sempre em construção, “afinando e desafinando”.

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Nota: Muito Obrigado a todos que tem visitado este blog e o Teatro da Vida também. O acesso foi maior do que o esperado. Isso exigirá ainda mais empenho para ótimas postagens e certamente trabalharemos para isso. Obrigado.

2 comentários:

Anônimo disse...

Amei o texto Kleber, é a sua cara!!! Sei como está sendo difícil pra vc esse fim...Interessantíssimo o texto da Suzana...mais uma vez vc arrasou!!!
Beijão meu querido...

Anônimo disse...

Caracaaaaaa, esqueci de assinar o post anterior!! rsrsrsrsrs
Beijosss

Paty