quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Dementadores à vista, marujo!

Por Kleber Godoy

Há uma névoa no ar. Serão os dementadores de J. K. Rowling? O que desencadeia o frio existencial, esse vazio que abarca pessoas no mundo todo? Talvez as soluções existenciais que são propostas pela sociedade de consumo e pelas novas formas de entretenimento, não sejam suficientes.

O que determina a felicidade? No segundo texto, há grande embasamento para a ampla teoria do psicanalista Alfred Adler, sobre a importância da socialização. Tomei a liberdade de colocar negrito em frases e parágrafos que achei importante destacar. Inclusive é o melhor texto baseado em fatos que já li a abordar tão consistentemente a sociedade de consumo, a vida do ser humano na pós-modernidade e a velocidade que se deve acompanhar para não ficar para trás. Tudo isso claro, em detrimento da felicidade, sempre protelada.

De outro lado, talvez escritores como Rimbaud e Lord Byron sempre estiveram certos ao falar da condição humana de viver o martírio e o castigo...

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Uma pessoa se suicida a cada 30 segundos no mundo
(em http://br.noticias.yahoo.com/s/afp/070910/mundo/oms_suic__dios_1)

GENEBRA (AFP) - Cerca de 3.000 pessoas se suicidam por dia no mundo, uma a cada 30 segundos, alertou nesta segunda-feira a Organização Mundial de Saúde (OMS) por ocasião do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

Para cada pessoa que acaba com a própria vida, pelo menos 20 outras fracassam em sua tentativa.

A organização assinalou que o trauma emocional que causa um suicídio no meio da família ou dos amigos do suicida, seja fracassado ou concretizado, pode durar vários anos.

"A porcentagem de suicídios aumentou de 60% no mundo durante os últimos 50 anos e o aumento mais forte foi registrado nos países em desenvolvimento", acrescentou a organização.

O suicídio é atualmente a terceira causa de mortalidade entre os 15 e os 34 anos, se bem que a maioria dos suicídios é cometido por adultos.

A OMS também destacou como cada vez um número maior de idosos acabam com suas vidas.

Para lutar contra o suicídio e colocar em andamento estratégias de prevenção é importante, segundo a OMS, acabar com os tabus e abordar o tema abertamente.

"É preciso que o suicídio não seja considerado um tabu ou o resultado de crise pessoais ou sociais, e sim um indicador de saúde que evidencia os riscos psicossociais, culturais e meio ambientais suscetíveis de prevenção", afirma a OMS.

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Mais ricos e menos felizes
A falta de tempo para a família e os amigos e a sensação de insegurança diminuem o bem-estar emocional que o dinheiro pode trazer

Esteban Hernández / Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Retirado do Site Uol em 19/08/2007

Em "A Corrosão do Caráter", Richard Sennett, o mais famoso sociólogo contemporâneo, comparou os estilos de vida de Enrico, imigrante italiano que trabalhava limpando escritórios em Chicago e cujo principal objetivo era poupar o dinheiro necessário para comprar uma casa digna e garantir um futuro melhor para sua família, e o de Rico, filho dele e submetido à vida flexível pós-moderna, às viagens constantes, à instabilidade no emprego e que, no entanto, gozava de um nível de vida elevado. Uma mudança tão acentuada, evidente a um simples olhar e refletida em inúmeras marcas físicas, psíquicas e sociais, não parece ter resultado tão positivo quanto se poderia esperar. Segundo um estudo da Universidade de Siena (Itália), dirigido pelo professor de economia política Stefano Bartolini, os americanos viveram um declínio apreciável em sua qualidade de vida, afetada principalmente pela deterioração das relações sociais e pelo aumento das horas de trabalho, e hoje são muito menos felizes do que há 30 anos.

Até poucas décadas atrás, na Espanha, se observavam esses dados à distância, como se fizessem parte de processos que só ocorriam em países com uma carga de ansiedade social muito maior que a nossa. Éramos pobres, mas vivíamos em termos cotidianos muito melhor que os frios e ricos países do norte da Europa. É claro que os relatórios atuais não parecem confirmar uma impressão que, apesar de tudo, parece continuar vigente na área mediterrânea. Em "O Primeiro Mapa-múndi da Felicidade", estudo dirigido pelo psicólogo social Adrian White, da Universidade de Leicester, e no qual foram compilados dados de 177 países, aqueles com maior índice de bem-estar emocional são Dinamarca, Suíça, Áustria, Islândia, Bahamas, Finlândia e Suécia. Os EUA são o 23º e o Reino Unido o 41º. A Espanha está em 46º lugar.

Em outras palavras, aconteceu conosco o mesmo que com Enrico e seu filho? Passamos em poucas décadas de um país pobre mas feliz, com um clima que favorecia relações sociais fortes, laços familiares sólidos e um sentido estreito de solidariedade, a outro muito mais disperso, com pessoas fechadas em si mesmas e com redes sociais frágeis? Trocamos felicidade por bem-estar material?

Sem dúvida os processos vividos em nosso país não são substancialmente diferentes dos ocorridos na Europa ocidental, onde as questões materiais deram lugar a aspectos muito mais relacionados à vida privada, indica Josep Maria Blanch, catedrático de psicologia social da Universidade Autônoma de Barcelona. "Quando os problemas de subsistência deixam de ser os que mais preocupam em um país, costumam tomar seu lugar os relacionados à qualidade das relações humanas. Os que hoje dispõem de maior status econômico também são os mais pobres em tempo. Assim, não temos energia disponível para as relações familiares, para cuidar dos filhos e para a vida social, o que faz nossa qualidade de vida decair".

Como medir a felicidade?

O grau de felicidade tem muito a ver com o bem-estar emocional, e este está intimamente relacionado à qualidade das relações sociais. Mas é o fator essencial? Como se pode medir a felicidade? Segundo Amado Peiró, professor do departamento de análises econômicas da Universidade de Valência, os elementos a considerar são: "A saúde, já que existe uma forte associação direta entre esta e a felicidade; o estado civil, pois os casados são mais felizes que os solteiros e muito mais que os viúvos, separados ou divorciados; e a idade, já que a felicidade decresce com o tempo até alcançar um mínimo na década dos 40 para remontar posteriormente". Outros fatores de aparente importância, como o sexo, o número de filhos, o tamanho da cidade em que se vive ou o nível de estudos "são variáveis que não estão praticamente associadas à felicidade".

Embora o principal indicador pareça ser o nível material, que aparece altamente valorizado nas pesquisas, tanto de uma perspectiva coletiva como individual. Assim, em "O Mapa-múndi da Felicidade", são os países de maiores recursos que ocupam os primeiros lugares. E seu diretor, Adrian White, afirmou que se poderia deduzir da pesquisa que, ao contrário do que afirma a psicologia social contemporânea, a principal causa da infelicidade é a pobreza. Segundo Peiró há três afirmações que podem ser consideradas certas no que se refere ao peso do nível econômico: "Em um país e em determinado momento, as pessoas de renda maior são mais felizes que as de renda menor, mesmo que a diferença não seja muito grande; em segundo lugar, os cidadãos de países com renda elevada apresentam geralmente um maior nível de felicidade que os de países de baixa renda; e por último, ao longo do tempo, os aumentos na renda dos cidadãos de um país não se traduzem em aumentos de seu nível de felicidade. Por exemplo, um país desenvolvido pode triplicar sua renda per capita ao longo de três ou quatro décadas e, no entanto, o grau de felicidade de seus cidadãos não variar".

Blanch concorda. Para ele, é significativo que nos EUA na década de 1990 o Produto Interno Bruto tenha crescido 30% e, no entanto, os níveis de bem-estar percebido e de satisfação com a própria vida tenham baixado substancialmente. "Todos tendemos a concordar que para conseguir esse maior poder econômico as pessoas precisam ocupar muito mais tempo, o que termina erodindo um elemento chave, o da qualidade da vida social. Há povoados com um nível de vida médio que são mais felizes, pois compensam a menor renda com uma vida social intensa e agradável".

Mas ao se levar em conta a realidade das respostas dos pesquisados é preciso avaliar uma série de constantes, explica Juan Díez Nicolás, catedrático de sociologia na Universidade Complutense de Madri e membro da World Values Survey, associação que publica a cada cinco anos a Pesquisa Mundial de Valores. "Há duas regras de ouro. A primeira é que a maioria das pessoas tende a se identificar como felizes, seja qual for sua situação: nas sociedades atuais, onde existe uma suposição segundo a qual quem tem talento e trabalha duro triunfa, quem não é feliz está admitindo uma espécie de fracasso". Em conseqüência, para um exame correto, é preciso levar em conta o conjunto de respostas: "Uma pessoa considera a si mesma bem, avalia sua situação pessoal como melhor que a do país e melhor ainda a de seu país em relação ao mundo". Igualmente, os fatores temporais precisam ser postos em perspectiva: "A avaliação do presente costuma ser melhor que a do passado, e a do futuro melhor que a do presente".

O futuro

E é exatamente na ruptura dessas regras que se pode apreciar melhor o aumento da infelicidade. De um lado, porque os cidadãos percebem o mundo como cada vez menos confiável e mais perigoso. E ao mesmo tempo porque o futuro já não é visto como o momento em que se concretizarão os desejos presentes. Pelo contrário, o futuro está se desenhando, sobretudo na vida privada, com características muito instáveis. Como indica Blanch, "convivem em nossa época a esperança de um tempo melhor com o medo de perder algumas coisas que havíamos conseguido".

Para Josetxo Beriain, professor de sociologia da Universidade Pública de Navarra, essas mudanças são mais um sinal da ambivalência da modernidade: "Tomamos como valores essenciais a velocidade e a aceleração e acabamos vivendo uma certa tirania do presente; ou possuímos grandes avanços técnicos que podem acabar nas mãos de terroristas como instrumentos de enormes massacres". Mas onde se dão as maiores contradições "é no trabalho e na família, os grandes espaços sociológicos, que é onde realmente se mede o estado das coisas. E podemos falar que na família contemporânea há mais liberdade, que a mulher pôde se emancipar e que podemos escolher melhor com quem queremos conviver. Mas ao mesmo tempo a família como colchão de segurança permanente, como couraça que nos protegia, como segurança social, está se deteriorando. Transformações equivalentes estão acontecendo no ambiente de trabalho, onde passamos de uma sociedade baseada na linearidade e na melhora progressiva para outra sustentada na insegurança permanente, como afirma Josep María Blanch. "Essa incerteza cria muitas dificuldades para planejar o futuro e para ver a vida com tranqüilidade. Mas ao mesmo tempo há um segmento de profissionais que desfruta e tira proveito dessa nova situação".

O terceiro aspecto paradoxal de nossos tempos aparece no consumo. Cada vez possuímos mais bens, gastamos mais com eles, desejamos com maior intensidade aumentar nossas propriedades, e, no entanto, os objetos não parecem melhorar nosso nível de felicidade. Pelo contrário: segundo Luis Enrique Alonso, catedrático de sociologia da Universidade Complutense de Madri, "os consumos particulares sempre nos deixam no âmbito da insatisfação. Quando os projetos vitais eram baseados no mundo do trabalho, alguém podia dizer 'sou economista, ou advogado, ou médico' e tinha um lugar de sentido definido. Agora, se alguém diz 'tenho o último ipod, logo sairá o superipod. É que o consumo vive das expectativas frustradas". E, embora possa parecer contraditório, "uma sociedade precária consome muito, geralmente animada por um entorno de comparações inter-subjetivas que sempre nos causa infelicidade".

Esse conjunto de transformações também foi objeto dos discursos políticos. A tensão entre o crescimento macroeconômico e o declínio do bem-estar privado foi abordada por David Cameron, o líder conservador britânico, que afirmou no início do ano que estava na hora de admitirmos que "na vida há algo mais que o dinheiro; além do Produto Interno Bruto devemos nos concentrar nos indicadores de bem-estar geral". Cameron quis salientar assim a necessidade de ações públicas que reforcem "a beleza de nosso ambiente, a qualidade de nossa cultura, e acima de tudo a força de nossas relações". O que pode parecer uma colocação paradoxal. Desde logo, porque é incomum que a política contemporânea pretenda entrar em assuntos privados, segundo afirma José Luis Ayllón, secretário de comunicação do Partido Popular especial. Ramón Jáuregui, deputado do Partido Socialista, concorda: "A política deve criar uma base de bem-estar, ajudar na convivência e a encontrar um equilíbrio entre liberdade e segurança. Essa é a sua base. Quando quer ir além, é preciso ser muito prudente. Esse é o caso da reivindicação da felicidade, algo muito pessoal, como aspiração política".

No entanto, a maioria dos programas partidários está tentando adequar suas respostas a mudanças sociais de grande profundidade, e que cada vez mais se referem a fatores intangíveis, a atitudes privadas que passam a ser objeto de ações públicas. É o caso da incerteza. No pessoal, como indica Concepciò Garriga, psicoterapeuta psicanalítica, "a insegurança faz parte de nossa realidade cotidiana e tentamos limitá-la onde podemos e com as ferramentas de que dispomos. E isso mesmo sabendo que é impossível ter tudo sob controle". No campo político, enfrentar essas novas situações foi parte central das propostas ideológicas dos últimos tempos. Segundo Ayllón, "ninguém mais espera entrar para uma empresa aos 18 anos e se aposentar na mesma aos 65. Hoje o futuro começa a cada dia e isso obriga a novos desafios. Por isso promovemos a reforma permanente, a necessidade de dinamismo; não podemos esperar que as oportunidades passem pela porta de casa; é preciso ir buscá-las".

Nessa ordem, o preparo é uma boa metáfora do que deve ser a vida contemporânea. "É preciso ter uma formação mínima indispensável, que deve ser complementada com a necessidade permanente de aumentar os conhecimentos ao longo da vida; se for possível ter duas profissões, é melhor que uma, e dominar três idiomas é melhor que dois". Nessas lições de casa também estão metidos os partidos políticos, segundo Ayllón. "Precisamos ser muito rápidos: as pessoas pedem que se esteja um passo à frente do que acontece e que se busquem fórmulas para ajudá-las em um ambiente confuso, no qual está havendo uma mudança brutal. Antes vivíamos uma mudança tecnológica a cada geração; agora ocorre a cada mês. De modo que, se você se torna conservador por dez minutos na sociedade atual, está perdido; é preciso estar sempre fazendo reformas, que é o que lhe permitirá se encontrar na posição de aproveitar as oportunidades que se apresentem".

Pressão contínua

Nesse mundo de pressão contínua, é básico, segundo Garriga, "saber reconhecer a própria responsabilidade nas trajetórias que se constroem, saber discriminar bem de que se depende para poder desenvolver-se. Quando se sabe afinar bem as próprias forças e capacidades, há menos possibilidades de frustração". E em boa medida essa perspectiva psicológica constrói muitas das visões políticas do presente. É o caso do "socialismo do século 21", como aponta Ramón Jáuregui: "Estamos ampliando os direitos, desde a agilização do divórcio até os novos casamentos, passando pelo reconhecimento dos indivíduos submetidos às oscilações do mercado, como os autônomos forçados ou dependentes. Mas isso não pode ser discutido sem levar em conta seu corolário: a ampliação da responsabilidade. A cidadania precisa ser responsável, e para isso é preciso carregá-la de deveres, deve haver prêmios e castigos. Essa é a base de uma cidadania informada, madura, capaz e responsável".

No entanto, além da configuração de propostas programáticas, não parece que a felicidade seja um assunto que possa ter incidência eleitoral. Exceto que, como indica Marcos Magaña, sócio-diretor da empresa de comunicação No Line, "se saiba traduzir aspectos próximos. É o velho problema do macro e do micro. Assim como os indicadores de um país não interessam muito às pessoas se não lhes mostrarmos que as afetam, a referência à felicidade só poderá ser útil se o eleitor perceber essas idéias como algo próximo, que afeta sua vida cotidiana". Mas com uma precaução: "É verdade que quanto mais bem-estar existe mais medidas se oferecem, que quanto mais passos dá uma sociedade mais sofisticadas são as propostas oferecidas. Mas o que as pessoas querem é que os políticos solucionem os problemas essenciais, e não costumam suportar muito bem que comecem a regular sua vida privada".


Um comentário:

Mími disse...

Este texto traduz o que alguns autores hoje chamam de pós-modernidade ou até mesmo de um novo movimento dentro da modernidade. Sociedade do consumo, um rítmo acelerado de informações..um momento histórico que abrange as ciências, a arte, a religião! Muito bom o texto!