quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O mundo precisa de gentileza

Por Ana Paula Porto Noronha

Tenho me dado conta de que o mundo está precisando de mais gentileza. Gentileza é, de acordo com o Grande Dicionário Larousse Cultural, delicadeza, amabilidade, cortesia... As pessoas têm sido pouco gentis umas com as outras. Observo no contexto onde trabalho, não raras vezes, que alguns funcionários são vistos como parte do mobiliário, de tal modo que, ao passarem por elas as pessoas não se preocupam com as palavras básicas que permeiam os códigos de educação, como o “bom dia”, “obrigada” e “até logo”. Não acho que isto resuma simplesmente o que é ser gentil, mas é um bom início para que as pessoas observem mais suas práticas diárias.

Tem uma funcionária que vai trabalhar toda produzida, com direito a maquiagem e cabelo arrumado por bobis. Quando passo por ela e lhe elogio, sinto sua gratidão, assim como sei que ela passaria boa parte da manhã me contando sobre seu final de semana. Talvez seja isso. As pessoas estão sempre sem tempo... A rotina... As exigências... A preocupação com a produção as deixa com pressa e com medo de perder tempo se tiver que olhar para o outro. Quanta tolice! “Perder tempo”, se é que podemos falar assim, com o outro, só nos torna seres melhores.

Também concebo o “ser gentil” como uma forma de respeito. E, a propósito, a este respeito, em conversa com uma amiga também professora universitária, com muitos anos de experiência docente, procurei refletir sobre as características de um “bom aluno”. Há muitas pesquisas científicas que tratam das características do bom docente e, pasme você, ou não, dentre elas, as características de personalidade estão lado a lado com o domínio do conhecimento. Ou seja, ser um bom docente implica, na mesma medida, em conhecer o assunto e possuir características que gerem bons relacionamentos interpessoais.

As pesquisas em tornos dos alunos, em geral, tratam basicamente de habilidades cognitivas. Como dizia, como síntese da conversa com minha amiga, definimos que igualmente ou mais importante que seu potencial cognitivo, o aluno precisa ter atitudes positivas. Sim, pode parecer estranho, mas é muito mais fácil e prazeroso trabalhar com alunos que tenham atitudes pró-ativas, que aqueles somente inteligentes. Infelizmente tenho encontrado, mais do que gostaria, pessoas desta última natureza, qual seja, com boas condições das suas capacidades intelectuais, mas absolutamente pobres no exercício da gentileza, do respeito, do amor ao próximo, do compromisso com o outro e consigo mesmo.

O texto de Malvar Fonseca pareceu-me interessante e em razão disso, gostaria de apresenta-lo.

“Há algum tempo, li não sei onde um episódio ocorrido com uma escritora que foi passar dois meses numa região montanhosa de um país europeu, num período do ano em que era freqüente acontecerem grandes tempestades; ia com o propósito de conhecer os costumes da gente do campo e colher assim material para um romance. Quando estava desfazendo as malas no pequeno chalé que alugara, com a ajuda da caseira que morava perto dali, desabou um grande temporal e as luzes se apagaram. A caseira acendeu umas velas e, enquanto atiçava o fogo na lareira, bateram à porta. Era um rapazinho de uns doze anos, conhecido da caseira. Depois de recuperar o fôlego, o menino disse:

- Vim ver se está tudo bem com a senhora.

A caseira agradeceu e apresentou-o à escritora. Como a ventania aumentasse e a chuva caísse com mais força, o rapaz perguntou à recém-chegada:

- A senhora não tem medo?

A escritora ia dizer que não, mas a caseira, que evidentemente não estava nem um pouco assustada, atalhou-a:

- É claro que ela estava morrendo de medo, assim como eu. Mas agora temos um homem aqui, e tudo vai ficar bem.

Quando a tormenta passou, o menino despediu-se e saiu, capengando do modo mais garboso que podia.

A escritora ficou pensativa e perguntou-se: "Por que não me ocorreu responder à pergunta do menino como a caseira?" E evocou tantas situações da sua vida em que se mostrara pouco sensível às necessidades dos outros por estar absorvida nas suas coisas. "Que havia naquela mulher simples do campo - continuou a pensar - que a tornava capaz de transformar um menino aleijado num homem confiante?" E teve de reconhecer: simples detalhes de gentileza e afeto.

Pois é precisamente no convívio com as outras pessoas que a atenção para os detalhes se reveste de um significado especial. Merece até um nome particular: delicadeza, que reclama uma grande diligência e grandeza de alma. É ela que permeia todas as virtudes próprias da convivência, como a cordialidade, a afabilidade, o acolhimento, o perdão, a paciência, enfim, a caridade. Manifesta-se principalmente, em palavras de Machado de Assis, "nesse desejo de bem servir que é a alma de toda a cortesia". Nunca deveria dar-se motivo para o comentário cético daquele que dizia que o lar é o centro geométrico das grandes dedicações e das pequenas desatenções. Mas trata-se de exercitar a "arte de ser amável" não apenas no sentido ativo, mas também no sentido passivo, isto é, facilitando aos outros que nos queiram bem. Quando penso nisto, lembro-me sempre de um cantor nacional que, há uns trinta anos, fazia um programa de TV com muito sucesso e que, no fim de cada apresentação, se despedia com as mesmas palavras: "Continuem a querer-me bem, que não custa nada". É isso o que quero dizer com ser amável no sentido passivo: que, pela nossa gentileza, não custe aos outros nada ou quase nada querer-nos bem.”

Fonte: "Coisas Pequenas", Editora Quadrante, São Paulo, 1996

Em síntese, exercitar a gentileza é possível; não dói; não tem contra-indicações; dissemina o amor; oferece bons modelos de relacionamentos interpessoais; promove a saúde mental, ao mesmo tempo em que favorece a física; deixa-nos mais felizes (suponho que pesquisadores tenham bons resultados a respeito disso) e reafirma a necessidade de se encarar cada dia como único. Prefiro escrever textos a partir dos quais possa fazer relações com a minha vida. Este texto, em especial, me possibilitou isto. Nesse sentido, quero oferecê-lo ao Kleber, meu parceiro de blog, e uma dessas pessoas que você encontra na vida e amansa seu coração ao ver que é um exemplo de aluno com excelentes capacidades cognitivas e é muito gentil!!!


Gentileza
Marisa Monte

Apagaram tudo

Pintaram tudo de cinza

A palavra no muro

Ficou coberta de tinta

Apagaram tudo

Pintaram tudo de cinza

Só ficou no muro

Tristeza e tinta fresca

Nós que passamos apressados

Pelas ruas da cidade

Merecemos ler as letras

E as palavras de Gentileza

Por isso eu pergunto

À você no mundo

Se é mais inteligente

O livro ou a sabedoria

O mundo é uma escola

A vida é o circo

Amor palavra que liberta

Já dizia o Profeta

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7 comentários:

Sandra disse...

Oi
Adorei o texto. Com certeza,tem algo nele que vou levar para a minha vida. Precisamos mesmo, repensar muitos atos e mudar algumas atitudes a fim melhorar o nosso convivio.
Obrigada.
Um forte abraço,
Sandra

Delfim Peixoto disse...

Li atentamente e sem dúvida que cada dia que passa essa é uma postura que cada vez mais menos se nota: a gentileza não por ética profissional ou social, mas sobretudo pela sua natureza. mas ainda se vê, raras vezes...
abraço

Lizi disse...

Olá..
texto mto bom.. bem reflexivo..
Mtos de nossos atos são feitos em função apenas de nossas próprias necessidades...e preciso que olhemos "além do nosso umbigo" e despertemos para o que vem do outro tbm...
A Gentileza é algo bem maior do ser educado... é uma forma de fazer com que as pessoas percebam o qto vale a pena "o querer bem"..
Parabéns!
Abraço..

Paty disse...

Texto belíssimo Ana, concordo plenamente com vc!! Gentileza é um item escasso hj em dia...às vezes um simples sorriso pode melhorar o dia de alguém...Parafraseando o poeta..."que me perdoem os grossos mas GENTILEZA é fundamental!
Beijo grande

Paty

Soninha disse...

Ana Paula, adorei o seu artigo Gentileza. Está de parabéns!
Sonia

Daniela Valente disse...

amei!
bjos

Nilton Nogueira disse...

Estou seguindo aqui tambem :) hehe seus textos são OTIMOS fiquei encantado.