segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A Vida, o Crescimento do País e a Maternidade

Por Ana Paula Porto Noronha

Há algumas semanas saiu uma reportagem interessante na Veja, que abordava a diminuição da população mundial, em especial da européia. As explicações para o fenômeno são variadas e podem ser discutidas sob as perspectivas sociológicas, físicas, culturais, dentre outras. Todos os aspectos são relevantes e merecem discussão aprofundada. Abaixo está o texto e, em seguida, meus comentários.

Na ordem natural da vida, cada geração deveria gerar descendentes suficientes para repor as mortes e ainda acrescentar alguns indivíduos à população. A União Européia inverteu essa lógica da natureza. De acordo com dados divulgados neste mês pelo Instituto de Política Familiar, sediado na Espanha, pela primeira vez na história o número de europeus com mais de 65 anos ultrapassou o de menores de 14 anos. Numa sociedade de população estável, espera-se uma proporção igual de crianças, jovens e adultos, mas menor de idosos em comparação a todos os outros grupos populacionais. O que está ocorrendo é a soma de dois fatores conhecidos. O primeiro é a queda na taxa de fecundidade dos europeus. A mínima para repor as perdas naturais de uma população é de 2,1 filhos por mulher. A média européia é de 1,37. O segundo fator é o aumento na expectativa de vida decorrente da melhoria das condições de vida e de assistência médica. Menos bebês e mais velhos é uma equação com sérias conseqüências populacionais a médio prazo. Em meados deste século, a Alemanha e a Itália terão menos habitantes que hoje. A França e a Espanha devem permanecer estáveis, mas só se continuarem a atrair imigrantes. Do ponto de vista populacional e cultural, a Europa Ocidental estará irreconhecível em duas ou três gerações.

O envelhecimento da população e a falta de bebês não são uma exclusividade européia. Trata-se de tendência generalizada entre os países ricos e desenvolvidos. Na Coréia do Sul e na Austrália, a taxa de fecundidade caiu abaixo da linha de reposição da população. O Japão apresenta o maior porcentual de idosos em relação ao total de cidadãos – 28%. Dos membros do G8, o grupo dos países mais ricos do mundo, apenas os Estados Unidos têm uma taxa de fecundidade capaz de manter a população estável. Isso, somado à imigração, garante o crescimento do número de americanos. Na Alemanha, na Espanha, na Itália e no Japão, a falta de bebês e o aumento no contingente de idosos são temas discutidos em tons apocalípticos. Não é sem razão. Tamanho e perfil da população costumam ser fatores relevantes no desempenho econômico de uma nação. Uma maneira clássica de calcular o crescimento do PIB potencial de um país é somar os índices de aumento da força de trabalho e da produtividade. Se a força de trabalho crescer 1% e a produtividade 2% em determinado ano, por exemplo, o aumento do PIB potencial será de 3%. Essa equação se explica pelo impacto que a falta de bebês pode ter sobre a força produtiva de uma nação no futuro. Menos trabalhadores significa menos produção de riqueza, menos gente para consumir e, o que é mais perturbador, menos contribuintes para manter o sistema de previdência, sobrecarregado pela multidão de aposentados.

Também nesse aspecto o planeta não é igualitário. Apenas quatro em cada nove pessoas vivem em um país com taxa de fecundidade abaixo do índice de reposição. As taxas de fecundidade continuam elevadíssimas nos países mais miseráveis da Ásia e da África. Isso pode mudar se essas sociedades se modernizarem. A história mostra que avanços na educação, mudanças no papel social da mulher e melhorias nas condições de saúde derrubam a taxa de fecundidade. "Na fase em que a Europa construiu sua hegemonia cultural e econômica, o número de europeus cresceu de maneira espantosa. No ano de 1900, um em cada quatro habitantes do mundo era europeu", disse a VEJA o sociólogo austríaco Meinhard Miegel, diretor do Instituto para Economia e Sociedade de Bonn, na Alemanha. Hoje, a proporção é de um em cada nove. O futuro do sistema de pensões tornou-se uma tormenta global, especialmente para alemães, italianos e japoneses, moradores de países com crescimento populacional negativo ou próximo disso. No Japão, há quatro trabalhadores na ativa para cada aposentado. Em 2050, estima-se que a proporção será de três para dois. Na Alemanha, a Previdência representa o maior gasto social do estado. Em países com sistema assistencial precário, o efeito da baixa taxa de fecundidade adquire contornos trágicos. Na China, com média de apenas 1,7 filho por mulher, os idosos dependem quase que unicamente dos filhos ou netos. Devido à política do filho único, o país enfrenta hoje uma distorção: em determinada fase da vida, um jovem adulto tem de sustentar sozinho dois pais e quatro avós. Isso em um país em que a expectativa de vida aumentou de 40,8 anos para 71,5 anos em apenas cinco décadas e em que há um desequilíbrio de gêneros: nascem 100 meninas para cada 118 garotos. Nesse ritmo, a China pode tornar-se um país com mais velhos do que crianças antes mesmo de atingir o pleno desenvolvimento. Essa tendência demográfica é um dos motivos pelos quais a China dificilmente poderá ultrapassar os Estados Unidos como a principal potência mundial.

A falta de bebês tem efeitos inesperados no modo de vida de um país. Na Toscana, a região de paisagens deslumbrantes no norte da Itália, cuja capital é Florença, o saldo entre nascimentos e mortes resulta na perda de 8.220 habitantes por ano. A conseqüência disso é o acelerado esvaziamento das áreas rurais. Não falta apenas mão-de-obra para cuidar da terra. Os proprietários também estão ausentes. É freqüente que o filho único não seja capaz de manter a fazenda herdada dos pais ou avós. No momento, a região está repleta de estrangeiros, sobretudo americanos e ingleses. Eles compram as vilas abandonadas, cujos preços caíram bastante nos últimos anos devido ao excesso de oferta, para usá-las nas férias.

Destaco neste momento, a perspectiva mais encantadora da discussão para mim, o prazer da maternidade. Experimentar a maternidade é bastante complexo e exige um esforço na direção de procurar ser uma pessoa melhor. Sim, pode parecer piegas, mas há uma condição nesse sentido, para que os filhos sejam minimamente sadios psicologicamente e seres humanos interessantes. Agora, cá entre nós, exercer a maternidade/paternidade exige talento; estabelece que você esteja disponível para o outro; implica na capacidade de não ser o próprio centro de sua vida em muitas das situações cotidianas; e, prioritariamente, ser mãe/pai significa ser capaz de amar. Preciso deixar claro que não estou falando simplesmente da capacidade de gerar filhos. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que meu filho nasceu e da alegria que senti quando olhei para ele. Não tenho dúvida de que esta é uma experiência que pode ser transformadora. Neste dia dei-me conta de que os versos se Rubem Alves faziam sentido para mim e que a cada dia, construiria uma nova sonata.

Compreendi que a vida não é uma sonata que, para realizar sua beleza, tem de ser testada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e de amor justifica a vida inteira.

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